Por um simples acaso dois desconhecidos encontraram-se despencando juntos do alto do Edifício Itália, no centro de São Paulo. - Oi - disse o primeiro, no alvoroçado início da queda. - Eu me chamo João. E você? - Antônio - gritou o segundo, perfurando furiosamente o espaço. E, só pra matar o tempo do mergulho, começaram a conversar. - O que você faz aqui? - perguntou Antônio.

Detectar encantos em lugares estranhos é recusar ser enfeitiçado pelo obvio. É fácil demais encontrar encanto num par de olhos ou nos contornos de uma boca bem formada.

As pálpebras começavam a ficar pesadas quando a senhora Sofia Vallender depositou o livro sobre o criado-mudo, apagou a lâmpada de cabeceira e se dispôs a dormir.Adormeceu sabendo que como de costume nada recordaria no dia seguinte. A leitura não lhe causava prazer. Era apenas uma maneira solitária de conviver com a própria solidão. Anotava em uma caderneta os títulos. Já eram mais de cinqüenta só durante este ano, mas os conteúdos permaneciam nas sombras da memória.

“Olá, garoto. Há quanto tempo, ahn? Anos. Bem, meu caro, as coisas não mudaram. Estou um pouco mais experiente, apenas isso. E, acredite, melhor fisicamente falando. Sempre atraí os homens, você sabe disso, garoto. Mas agora… Bem, agora estou levando a academia realmente a sério. Minhas carnes estão duras, garoto. Rijas. Vou lhe dizer uma coisa muito séria sobre a minha própria bunda: tenho orgulho dela como jamais tive. Redonda, tesa, firme como as convicções do PSOL. Percebo que os homens ficam olhando para ela. Aí abuso. Visto calças justas, garoto. Justíssimas.

Ler, para mim, sempre foi uma atividade anárquica e muito prazerosa. Jamais fui capaz de leituras organizadas, panorâmicas, escafândricas. Minhas fichas de leitura sempre são uma caneta a sublinhar as passagens mais interessantes dos meus livros preferidos. Detenho-me, no meio de uma leitura, diante de um onomástico, e corro à minha biblioteca a catá-lo. E raramente volto ao ponto em que parei (no mesmo dia, na mesma semana), pois que o segundo livro me levou ao terceiro, e este ao quarto, e aquele ao quinto...

A cabeça, pois era realmente uma cabeça. Uma cabeça de gente, uma cabeça de mulher. Estava ali, no chão, em plena rua, sob o sol, naquela radiosa manhã de domingo. De quem era? Quem a pusera ali ? Por quê? Ninguém sabia. Perguntou um homem de terno e gravata que tinha passado e parara junto a rodinha de curiosos: - Já chamaram a policia? Alguém chamô os home?

No fim de um ano de trabalho, João obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. João era moço, aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe. No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito.

Ele, o moço, jamais desejara tanto uma fêmea como a mulher do primo (os primos tinham sido criados juntos, ele, o moço, seria um irmão caçula). Aquelas nádegas possantes, divididas pelo maiô, em relevo maior, agressão, quando ela se curvava para apanhar qualquer coisa ou fazia ginástica. Conscientemente provocante? A curiosidade dos homens. O marido (era engenheiro), calmo, apanhava a garrafa de cerveja no isopor à sombra da cadeira de lona. O moço não compreendia essa indiferença, tranquilidade. Mais uma vez, a lembrança do outro, que era professor, colega dela na faculdade. Quase passavam o dia no laboratório de química. Tinham viajado juntos, com mais alguns colegas, para um congresso no sul. Mais de uma semana de ausência. Na volta, a tranquilidade de sempre. – Tudo bem? – Foi ótimo! – ela disse ainda desfazendo a mala. Não, não entendia. Aborrecida o outro e evitava-o.

LEPORELO: Nesse caso, senhor, lhe digo com toda franqueza que de modo algum aprovo seu procedimento. E acho até bem safado amar pra lá e pra cá como o senhor faz. DON JUAN: Não diga! Você pretende que uma pessoa se ligue definitivamente a um só objeto de paixão, como se fosse o único existente? Depois disso renunciar ao mundo, ficar cego para todas as outras formosuras? Bela coisa, sem duvida, uma pessoa em plena juventude enterrar-se para sempre na cova de uma sedução, morto para todas as belezas do mundo em forma de mulher.

Transe de ruídos abafados, farfalhar de lençóis, odores indecentes, risinhos que viravam gargalhadas sem freio e uma dor que de doer tão fundo já nem doía, deleitava, dava vontade de pegar de morder, de gritar, de morrer – de não morrer nunca mais..." Vergonha infinita e falta de vergonha maior ainda. Só aos poucos foi percebendo que dentro do turbilhão de imagens fundidas com odores, sensações táteis."

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.- É que estou sem defesa – respondi.– Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.

Qual a diferença entre um cara sair com uma “moça de família” que ele quer comer e que está mais interessada no fato dele ter dinheiro pra bancar tudo e ter carro pra buscar e depois devolver na porta de casa, e sair com uma puta que ele vai pagar pra comer?

A ação da peça se passa no quarto de Nat Ackerman, na sua mansão em Kew Gardens. O quarto é atapetado. Há uma cama de casal e uma enorme penteadeira. A mobília e as cortinas são luxuosas. Nas paredes, diversos quadros e um barômetro de não muito bom gosto. Música suave enquanto a cortina sobe. Nat Ackerman (51 anos, calvo, ligeiramente gordo, proprietário de uma confecção) está deitado na cama, acabando de ler o jornal do dia seguinte. Está de roupão e chinelos, e lê à luz de um pequeno abajur preso no espaldar da cama. Ê quase meia-noite. De repente, ouve-se um barulho estranho e Nat se levanta e vai até a janela.

Minha alma se alegra em ver-te sedento por mim, pelos meus beijos, pelas nossas energias juntas, misturadas, perdidas numa só... Sei que tudo tem hora para terminar, mas não quero te devorar antes do tempo. Não quero matar minha fome e me saciar.

Diga rápido: o que o jogo de canastra tem a ver com o amor? Diga, diga. Não sabe? É fácil. Nada. Jogo de canastra nada tem a ver com o amor. Mas jogar canastra com a pessoa amada é melhor, ah é. Ela anuncia, voz de moranguinho com nata: — Morzinhoooo, bati — e se debruça sobre as cartas para lhe pespegar uma bicotinha na ponta do nariz.

A Marta Gleich, que é a führer do Zero Hora Ponto Com, sugeriu-me que escrevesse sobre o acalorado debate que se instalou a respeito do poliamor. Pois bem. Tenho algo a dizer acerca. O seguinte: Monogamia é coisa de mulher.Casamento também, na verdade. Aliás, na cabeça das mulheres são conceitos complementares, o casamento e a monogamia. Havendo um, a outra está implícita. Ou, antes, explícita.
A GOTA DELIRANTE


Escreveu Raquel de queiros, Moreira campos é um desse que pertence à magra família dos Machados de Assis, Gracilianos, dos Torga, sem acrobacias nem sensacionalismos semânticos, sem recursos a pretensões de quem tenta criar uma língua nova.

Para ele o mármore clássico: a limpidez, a fluidez cristalina da frase. Mestre na arte do conto, sempre nos surpreende com a sua síntese de escrita.

Capaz de resumir toda uma situação dramática em duas frases.

Texto de Teresa Freire


A GOTA DELIRANTE

Ele, o moço, jamais desejara tanto uma fêmea como a mulher do primo (os primos tinham sido criados juntos, ele, o moço, seria um irmão caçula). Aquelas nádegas possantes, divididas pelo maiô, em relevo maior, agressão, quando ela se curvava para apanhar qualquer coisa ou fazia ginástica. Conscientemente provocante? A curiosidade dos homens. O marido (era engenheiro), calmo, apanhava a garrafa de cerveja no isopor à sombra da cadeira de lona. O moço não compreendia essa indiferença, tranquilidade. Mais uma vez, a lembrança do outro, que era professor, colega dela na faculdade. Quase passavam o dia no laboratório de química. Tinham viajado juntos, com mais alguns colegas, para um congresso no sul. Mais de uma semana de ausência. Na volta, a tranquilidade de sempre.

– Tudo bem?

– Foi ótimo! – ela disse ainda desfazendo a mala.

Não, não entendia. Aborrecida o outro e evitava-o.


A agressão das nádegas na praia. O moço, sentado na areia, sentia novamente o calção umedecer-se, molhar-se. Num início de gozo, a gota delirante.

Estava na casa do primo não havia muito tempo. Transferido para a agência bancária, faria o último ano de Direito. No quarto dos fundos, mentalmente levava-a para a sua cama de solteiro ou mesmo para a cama dela. O marido viajara (construía e estradas no Interior). Ela, só e tão próxima, a poucos passos! As coxas portentosas, abauladas, por onde ele insinuara a mão grande, mas branda, macia e inventiva. O supremo bem de poder desnudá-la, tirar-lhe o baby-doll tantas vezes entrevisto e exasperante. Pagaria a penetração com a própria vida, se necessário:

– Pagaria, sim...

Falou alto, e surpreendeu-se. Inútil também a leitura do livro de Direito. Ela estava nas páginas, embaralhava-se, escanchava-se (era bem o termo nas letras. Seria mais fantasia sua, a intimidade de casa, cúmplice? As coxas fortes já apresentavam celulite, o começo de rugas no canto dos olhos, quando ria. Não, não! Tudo se exacerbara quando, de passagem pelo corredor, a porta do banheiro entreaberta, a surpreendera grandemente nua, com aquelas forças todas reunidas de uma só vez. Ela propriamente não se assustou. Apenas deu um gritinho muito feminino, vedando o sexo com as mãos:

– Ai!

O sexo era farto, visto assim de frente e agora para sempre grudado aos seus olhos. Quase chegava a apalpá-lo, senti-lo na mão cheia. Um abismo que lhe dava grandes silêncios, como neste instante na sua cama de solteiro. Revolvia-se, fofando, mudando a posição do travesseiro, insone. Voltou a acender a lâmpada na mesinha de cabeceira. Tentou mais uma vez o livro, que tinha prova daí a dois dias. O sexo, ela toda, se enleava, se escanchava (era bem o termo) entre as letras, o começo, o meio e o fim do capítulo não assimilado. Ela, tão próxima, só no quarto! A porta do banheiro teria sido deixada entreaberta de propósito? Porque não se surpreendera. Soltara apenas o gritinho muito feminino, vedara-se, rindo. Ele, estático, parado, hipnotizado, na porta do banheiro. Depois, ela passaria por ele com aquele olhar rápido, que escorregava pelo chão.

O velho relógio de parede, lá na sala, teve um gemido de ferros e deu duas horas.

Adormeceu.

Despertava para o suplício, como na manhã em que ela achava de atirar sobre o corpo o vestido fino, transparente, meio gasto, a calcinha de rendas visível e desesperadora, ele à sua frente ali no corredor. Mais provocações? Voltava a rir-lhe, de passagem, os olhos no chão. Tinha a consciência de que os olhos dele a trespassavam, acabavam de desnudá-la.

Ao entrar no banheiro, novamente sentia os pêlos da coxa forte e cabeluda grudados pelo sêmen, o quase orgasmo, a gota delirante. Doía até despregá-los, valia-se do sabonete. Insistia a idéia de mudar-se para uma pensão.

Logo mais ela iria para a faculdade no carro. O marido sairia para a sua empresa de construção, deixando o filho no colégio, e ele, o moço, aproveita a carona. A casa praticamente vazia. Apenas a mãe dela, com o seu croché ou as palavras cruzadas, à luz da janela, a empregada e o rádio de pilhas sobre a geladeira.

O marido viajara mais uma vez. A empregada já se recolhera, após a segunda telenovela. A velha, também. Ela despertou o filho adormecido no divã e o encaminhou para a cama no quarto da avó. Na poltrona, apenas ele, o moço. Diminuiu o volume da televisão, quase inaudível. Idéia de que ele viria naquela noite. Os olhos consultavam o corredor. E ela apareceu, na leveza desesperadora do baby-doll. Nada de televisão, somente a imagem na tela. Silêncio. A cadeira dela oscilava branda. A inutilidade da imagem no vídeo. Ela mesma se levantou contra a luz para fechar o aparelho (que coxas, meu Deus!). chegou a pedir silêncio, levando o dedo aos lábios, porque ele fizera rumor ao erguer-se da poltrona:

– Psiu...

Iam pelo corredor. Quis pegá-la decididamente pelo braço. Ela se antecipou, segurando-lhe com energia a mão. Dirigiram-se ao próprio quarto do moço, que teve a necessidade de apanhar a toalha de banho ainda úmida atirada em bolo sobre a cama. Posse desesperada, profunda, a loucura, o sexo confundido com a própria morte.

– Me mate! – ela dizia.

Restou exausto, esvaziado, sugado até a última gota. Talvez ela o esperasse também havia muito. Porque ainda o apertava com força nos braços e ele sentia nas costas moças e largas a ponta de suas unhas esmaltadas.

in: CAMPOS, Moreira. Dizem que os cães vêem coisas. 2a. edição. São Paulo. Maltese, 1993.




Moreira Campos